Como foi anunciado, a Assembleia da República aprovou na generalidade projetos de lei relativos às regras aplicáveis à utilização de bicicletas e trotinetes. Estes projetos baixaram à comissão parlamentar competente, onde serão discutidos na especialidade. Nesse contexto, a MUBi está a ter audiências com os grupos parlamentares antes da apreciação dos projetos em Comissão. Numa das audiências foram-nos pedidas mais informações sobre o conceito “Segurança pelos Números”.

O conceito de «segurança pelos números» (Safety in Numbers) descreve a relação inversa observada entre a frequência de pessoas que caminham ou utilizam a bicicleta e o risco individual de colisão com veículos motorizados: à medida que aumenta o número de pessoas que se deslocam a pé ou em bicicleta, o número de colisões tende a crescer menos do que proporcionalmente à exposição, pelo que o risco individual diminui (Jacobsen, 2003; Elvik & Bjørnskau, 2017; Elvik & Goel, 2019).
Uma meta-análise de 26 estudos confirmou a consistência deste fenómeno, embora a magnitude do efeito varie consideravelmente. Entre as explicações propostas encontram-se a maior atenção dos condutores perante a presença frequente de pessoas a pé ou em bicicleta e a adaptação do seu comportamento, bem como possíveis diferenças nas características do ambiente rodoviário (Jacobsen et al., 2015).
Contudo, a associação estatística não demonstra, por si só, uma relação causal: ambientes rodoviários mais seguros podem simultaneamente incentivar a mobilidade activa e reduzir o risco de colisão (Bhatia & Wier, 2011). Assim, a evidência sustenta a promoção da mobilidade pedonal e em bicicleta como parte de uma estratégia de segurança rodoviária, mas não justifica confiar apenas no aumento do número de pessoas que caminham ou utilizam a bicicleta. Esta promoção deve ser acompanhada por intervenções estruturais que reduzam a exposição ao perigo, nomeadamente a moderação da velocidade dos veículos motorizados, a melhoria das infraestruturas e a conceção de ruas que protejam efetivamente quem caminha e pedala.

Segurança pelos Números Relação y:ciclistas mortos por 100 milhões de km / x:km pedalados por pessoa-dia By Wittink, Roelof, I-ce Interface for Cycling Expertise: Planning for cycling supports road safety.
Referências
- Jacobsen, P. L. (2003). Safety in numbers: More walkers and bicyclists, safer walking and bicycling. Injury Prevention, 9(3), 205–209.
Artigo integral, acesso aberto
Relevância: estudo seminal que identificou a associação entre o aumento da mobilidade pedonal e em bicicleta e a redução do risco individual de colisão. - Elvik, R., & Bjørnskau, T. (2017). Safety-in-numbers: A systematic review and meta-analysis of evidence. Safety Science, 92, 274–282.
Artigo científico
Relevância: revisão sistemática e meta-análise de 26 estudos que confirma a existência do fenómeno, mas salienta as incertezas sobre os seus mecanismos causais. - Elvik, R., & Goel, R. (2019). Safety-in-numbers: An updated meta-analysis of estimates. Accident Analysis & Prevention, 129, 136–147.
Artigo científico e resumo
Relevância: actualiza a meta-análise e conclui que o efeito tende a ser mais forte para peões do que para pessoas em bicicleta e à escala das cidades do que em cruzamentos individuais. - Bhatia, R., & Wier, M. (2011). “Safety in Numbers” re-examined: Can we make valid or practical inferences from available evidence? Accident Analysis & Prevention, 43(1), 235–240.
Artigo científico e resumo
Relevância: análise crítica que alerta para os limites da inferência causal e para o risco de utilizar o conceito como substituto de intervenções de segurança rodoviária. - Jacobsen, P. L., Ragland, D. R., & Komanoff, C. (2015). Safety in Numbers for walkers and bicyclists: Exploring the mechanisms. Injury Prevention.
Artigo científico
Relevância: discute os mecanismos que poderão explicar o fenómeno e a importância de avaliar o risco em função da exposição, em vez de considerar apenas o número absoluto de colisões.