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Porquê falar de género quando falamos de andar de bicicleta?

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Encontro de Mulheres a Pedalar, 19 de Julho de 2026 no Porto

Porquê falar de género quando falamos de andar de bicicleta? Porque acreditamos que usufruir da cidade e da vivência urbana deve ser universal e acessível a todas as pessoas, independentemente do seu género, idade, etnia, religião, nacionalidade, orientação sexual ou qualquer outra característica.

Este ano, um conjunto de pessoas de várias associações espalhadas pelo país, renovaram o Manifesto Mais Mulheres a Pedalar, que a 8 de Março de 2022 expôs 8 reivindicações por um ambiente urbano e de mobilidade mais seguro para o uso da bicicleta de modo inclusivo, nomeadamente, a nível de género.

Estas 8 reivindicações centram-se em: 

  1. Aumentar a nossa participação no processo de construção urbana;
  2. Segurança para circular de bicicleta, sozinhas ou em família, transportando ou acompanhando crianças, sem sermos expostas à violência rodoviária;
  3. Experienciar a vida urbana nas nossas cidades sem sermos alvo de qualquer tipo de assédio, de violência física ou verbal;
  4. Infraestrutura ciclável lógica, confortável, segura e bem iluminada;
  5. Sistemas públicos de bicicletas partilhadas e de aluguer de longa duração, que permitam transportar também crianças, ou pessoas com mobilidade reduzida;
  6. Que as nossas crianças possam ir para a escola de forma autónoma, a pé ou de bicicleta, e bairros protegidos para que possam brincar sem necessidade de vigilância constante;
  7. Aprendizagem para andar de bicicleta na idade adulta, capacitando mais mulheres para o uso regular e independente da bicicleta, mas também que seja parte do currículo escolar;
  8. Campanhas que promovam a igualdade de género e a não discriminação.

No dia 19 de Julho, esta rede reuniu-se na Coop99 para desenvolver estratégias de ação colaborativa em prol da adopção de uma perspectiva de género no campo da mobilidade e do urbanismo sustentáveis.

Na parte da manhã, partilhámos experiências individuais e coletivas, incluindo os resultados do questionário lançado a vários coletivos sobre as ações que realizam na charneira entre género e uso da bicicleta, tendo como enquadramento o referido Manifesto.

Às 16h, numa conversa aberta ao público em geral, refletimos sobre as ligações e inquietações entre Género e Mobilidade. Tivemos como convidada Maria Gallego, coordenadora de Equidade da Conbici, organização de cúpula que agrega várias associações de promoção da mobilidade ativa, em Espanha.

“Desde Conbici, el área de Equidad, mostramos nuestro compromiso y cooperación para impulsar un cambio real y necesario. Tanto las propuestas como las percepciones desde el punto de vista de género causa similitudes con lo que se precisa en España. Los desafíos que nos encontramos en ciudades de Portugal y en España son los mismos. Este encuentro de intercambio de experiencias y de compartir buenas prácticas ciclistas fomenta el liderazgo femenino en el uso cotidiano de la bicicleta.”

Maria Gallego, Coordinación de Equidad de Conbici

Globalmente, o encontro reuniu cerca de 15 mulheres e contou com a participação de vários coletivos e/ou de mulheres envolvidas em diversos grupos e movimentos, para além da MUBi e da Conbici, a Femina, a Inspira Mobilidade, a Kidical Mass, a Massa Crítica do Porto, a Bicircular, as Girls Rides, a Fancy Woman Bike Ride e as Spinchicks. É de realçar que boa parte das mulheres se deslocaram de Lisboa para este encontro no Porto, o que nos deixa muito satisfeitas, pois mostra que há forte motivação para colaborar neste âmbito.

As refeições foram servidas pelo Canapé Rebelde, o serviço de catering social e ambientalmente responsável da Coop99.

No Passeio realizado no final da tarde de dia 18, guiado pela fantástica Isabel Camarinha na sua bicicleta Vilar 🙂, contamos também com a participação da Viana Ciclável.

Da discussão durante a manhã surgiram algumas propostas às quais se acrescentaram outras sugestões de mulheres que se juntaram ao grupo, na parte da tarde. Foram estas as propostas lançadas para futura colaboração interorganizacional:

  1. Campanha de sensibilização com três partes: começa por mostrar o maravilhamento e os ganhos do uso da bicicleta (benefícios físico, psicológico, emocional, de “empoderamento”, sentimento de liberdade, alegria, conexão consigo própria e às outras pessoas), depois os obstáculos, e logo, possíveis respostas para superá-los. Campanha focada na conexão emocional, com capacidade de sedução e persuasão. 
  1. Recolha de dados sobre a utilização de bicicleta por mulheres e homens, sobre o gender gap e outras articulações entre género e mobilidade ativa. 
  1. Ações performativas – com intuito de gerar sociabilidades coletivas e atrair pessoas fora dos contextos ativistas para a beleza e versatilidade do uso da bicicleta, que, em alguns casos, se podem também enquadrar no âmbito da Ciência Cidadã. Exemplos: 
    – dança com bicicletas – ação já em curso, no Porto com Jô da Silva e Vera D.; 
    – uso de sistemas de medição da qualidade do ar, que compõe música de acordo com os polimentos no ar ao longo da viagem em tempo real. 
  1. Atuação em campos mais amplos como a Saúde Pública e o Ambiente ou Clima (expl. rede criada no âmbito dos Encontros Regionais pela Justiça Climática; e fazer parcerias com organizações relacionadas com a Saúde Pública). 
  1. Ensino da condução da Bicicleta – ampliar e melhorar iniciativas existentes (Porto – Bicircular; Lisboa – Tia Bina) e valorizar o trabalho e tempo das pessoas envolvidas, criando trabalho pago (ex: Tia Bina). Revitalizar grupos como a Fancy para terem dinâmicas ao longo do ano e servirem como comunidades de mulheres que se apoiam e trazem mais mulheres capazes de circular no ambiente urbano.   

É evidente que estas propostas não se cingem à dimensão do género. No entanto, tendo em mente uma perspectiva de género ao agir nestas diversas frentes, seremos mais abrangentes, mais inclusivas enquanto organizações e mais honestas e abertas, enquanto pessoas. Esta abertura vai no sentido de ampliar a reflexividade e as sensibilidades holísticas das pessoas envolvidas no ativismo pela mobilidade urbana em bicicleta, na linha da corporalização do ativismo que exploramos já noutros artigos. 

Isto evidenciou-se na facilidade com que determinadas vulnerabilidades são mais facilmente expostas num contexto unicamente ou maioritariamente feminino. Não tendo sido uma opção explícita, o título do encontro conduziu a essa leitura. A opção por criar contextos femininos ou não binários é, em muitos contextos, questionada. As suas justificações baseiam-se na necessidade de criar oportunidades de real empoderamento das mulheres e pessoas não binárias, bem como de partilhas mais livres do “olhar dos homens”.

Simultaneamente, é importante abrir espaços onde homens, mulheres e pessoas não binárias se possam aliar em lutas por igualdade de género e consigam estreitar diálogo sobre as questões de género. Assim, acordamos organizarmo-nos de modo espontâneo e fluído, de acordo com a motivação e disponibilidade de cada uma para estas cinco propostas. 

A vida dirá qual delas sairá do papel primeiro e como! Pois, sabemos que o ativismo “verdadeiramente radical” é “consciente de si próprio” (Kaplan & Davidoff, 2026:19), logo, consciente da incerteza que o rodeia e das suas limitações. Por isso também mais livre e mais aberto às possibilidades que o respeito pelos processos de diálogo e criatividade humana podem trazer.

Apontamos a intenção de realizar um novo encontro em meados de Outubro (em princípio, entre 16 e 18 de Outubro de 2026), noutra localidade a definir. 

Num convívio, novamente, adoçado pelo Canapé Rebelde, despedimo-nos, mais ou menos devagar, pois o “ativismo é uma viagem” (Cox, 2021). É uma viagem que queremos saborear e que estamos sempre a tempo de retomar e reavivar, ao longo da vida. Note-se que entre as mulheres presentes e outras envolvidas neste movimento, é comum a gravidez e o período de amamentação das crianças serem momentos em que se afastam do ativismo.

Se queres começar, recomeçar ou reanimar esta viagem connosco, aproxima-te! 

No cruzamento entre género e uso da bicicleta, como noutras áreas da mobilidade ativa, há muito a fazer em Portugal. Muitos caminhos a trilhar para que todas as pessoas sejam efetivamente livres de tomar as opções de mobilidade que desejam, com benefícios pessoais, sociais e ambientais. 

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